segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Considerações sobre um parto tipo humanizado

Tá dificil blogar, sem tempo mesmo, há três dias querendo postar...Eu hoje ia postar uma outra coisa que tá quase pronta, só faltavam os links, mas resolvi mudar de assunto completamente, pois as mães das redes sociais em todos os grupos só falam sobre esse assunto e eu preciso me manifestar para além das redes. Preciso dar um outro lado da moeda e com informação de qualidade, para problematizar e provocar questionamentos.
O que está acontecendo e que está mexendo com a cabeça das mulheres mães é o caso de uma mulher que foi para a Maternidade Maria Amélia no Rio de Janeiro e seu bebê morreu em decorrência da aspiração de mecônio (o primeiro cocô). A mídia sensacionalista abraçou o caso e isso me soa muito mais como um golpe no movimento de humanização do parto do que real preocupação com esta mãe e compromisso com a informação, pois a referida maternidade municipal possui profissionais humanizados, infelizmente não são todos, mas há equipes que prezam pelo respeito a fisiologia do parto e ao corpo da mulher. Todos os dias morrem bebês em diversos hospitais e maternidades, mas não viram notícia. Morrem mães também. seja por fatalidade, seja por negligência, mas nem sempre são noticiados. E é aí que eu acho estranha toda essa repercussão nesse caso. Enquanto mãe entendo a empatia que essa situação gera, e não, eu posso até imaginar, mas não consigo nem chegar perto da dor de perder um filho esperado por semanas a fio, planejado e já tão amado. Com certeza isso gera uma revolta, com certeza isso nos faz duvidar de tudo e procurar um culpado. Não sei se nesse caso houveram culpados e não sou juíza pra julgar nada nem ninguém, mas gostaria de lançar um olhar sobre os fatos ocorridos.
A mãe que passou por essa situação divulgou na internet o seu prontuário e seu relato.

Li e analisei os dois, e as minhas conclusões são que houve violência obstétrica sim, mas não foi violência tudo que parece ser, muitas das coisas que pra uma pessoa leiga possa parecer violência, não, não é. Percebe-se muito claramente que infelizmente o parto, que deveria ser algo natural, que nossa ancestralidade e nossa sabedoria de mulher, aquela que gesta, saiba parir, ledo engano, as intervenções e o nosso modelo cultural ajudaram a borrar essas memórias e noto que ela não estava preparada de fato para um trabalho de parto e que desconhece a fisiologia do parto, isso não é culpa dela é culpa do sistema que preferiu medicalizar o parto e excluir a mulher de conhecer os processos que acontecem com ela do e no corpo dela.. Isso não é pra médico saber apenas, afinal o corpo é nosso, nós temos que saber os caminhos que passamos até encontrarmos nossos rebentos, precisamos saber como vai ser o momento dele rebentar, como diria Chico Buarque.

A desinformação foi crucial, e acho que um erro da maternidade é não ter um pré natal adequado que prepare realmente para o parto, qualquer mulher pode chegar lá e parir não importa o pré natal que teve. No relato fica claro que algumas coisas são absurdas, mas aos olhos de uma pessoa leiga tudo ganha uma proporção maior, houveram fatos que não são absurdos, mas que parecem ser em meio a tanta dor.  Esse papo de gestação prolongada de 40 semanas e 3 dias foi repetido várias vezes e na verdade não houve nenhuma gestação prolongada um parto a termo vai de 38 a 42 semanas, após 42 semanas podemos falar em gestação prolongada e ainda assim ocorrer tudo muito bem e com desfechos bons para mãe e bebê. Mas como no Brasil os médicos gostam de operar com 37 a 38 semanas muitas pessoas podem pensar que 40 semanas é uma condição anormal e extraordinária, o que não é, tanto que o ACOG (colégio americano de ginecologia e obstetrícia) mudou a recomendação das marcações de cesárias, visto que a maior parte dos partos vai até pelo menos 40 semanas se não for interrompido por médicos com procedimentos e intervenções. O poder da mente no trabalho de parto é muito grande e pode atrapalhar muito, medo, tensão só geram mais dor. Uma mulher que se sente muito observada e invadida não consegue também entrar em contato consigo mesma a ponto de conseguir uma boa evolução do trabalho de parto. Mas ainda que eu ache que a equipe em alguns momentos abandonou a gestante propositalmente pra ela ficar mais a vontade, vejo que não houve negligência quando é possível ver no prontuário que ela foi monitorada constantemente e que o espaço entre uma anotação e outra não é muito longo, portanto nesse caso não foi desassistido, em vários pontos do prontuário também é possível ver anotações do BCF (batimento cardio fetal).

O que é preciso saber é que em um parto humanizado não se aplica sorinho, ou sorinho da força que em todo hospital dão e por isso acham que é bom, mas se este soro for administrado as dores aumentam muitíssimo e ficam bastante insuportáveis, nesse caso só seria pior. Episiotomia é um corte no períneo é uma mutilação e a laceração não é tão comum e quando ocorre não é tão ruim quanto uma episiotomia. Isso é uma violência obstétrica tanto quanto tratar mal.

Mas vou abordar um ponto chave, parto humanizado não é forçar parto normal, é deixar o corpo no seu tempo fazer em parceria com o bebê o que precisa ser feito. Isso precisa ser entendido. Pois nesse caso parece que o vilão foi o parto normal, quando na verdade se fosse realizada uma cesariana e o bebê tivesse feito cocô, o mecônio. ele teria aspirado do mesmo modo e a cesárea não teria salvado, além de trazer mais riscos de morte para a mãe.Eu tô sendo advogada do diabo, pois nosso lado mãe grita ao ver uma coisa dessas e agimos com a emoção e não com a razão.Acho que o movimento de humanização do parto ganhou muita visibilidade e militância o que gerou problemas a ele, muita gente se dizendo humanizada achando que humanização é luz baixa e musiquinha. Mas acho que esse tipo de noticia vinculada especificamente a MMA é pra exatamente abalar a nossa fé no humanizado e vejo que muito dos discursos estão em relação a forçar parto normal, forçar qualquer coisa que seja não é humanização, a MMA não é uma maternidade humanizada, mas que tem profissionais humanizados, infelizmente não são todos. O parto humanizado não é um parto 100% fisiológico, se precisar de alguma intervenção vão fazer, tem o dever de fazer e garantir que mãe e bebê saiam bem do parto. A diferença é informar a mãe sobre os procedimentos antes de realizá-los e fazer nas necessidades e não rotineiramente. Com certeza um parto horroroso e sofrido não é humanizado e uma cesárea é menos traumática nesses casos.
A questão do sofrimento fetal muitas vezes levantada é que médicos dizem que vão fazer cesárea porque o bebê está em sofrimento fetal, nós mães no momento do parto ou em qualquer outro não queremos sofrimento do filho e aceitamos a cesárea que salvará o bebê, mas o que muitas mulheres questionam em fóruns é que se o bebê estava em sofrimento o apgar deveria ser menor que 7, um bebê que o médico diz que está em sofrimento e nasce 9 até 10 de fato não estava em sofrimento, e elas passaram por um pós parto muito ruim na maioria dos casos sem necessidade. Eu tive um parto domiciliar, tive a sorte de poder conhecer essa possibilidade e de poder pagar, pois infelizmente parto no brasil é uma indústria, mas aí as mais xiitas diriam que meu parto não foi humanizado, sabe porque? Fizeram manobra de Kristeller, e assim que eu digeri o parto e estudei cada vez mais via muita gente dizendo que Kristeller era a pior coisa que se podia fazer, mas acho que cada caso é um caso eu não tinha mais muitas forças, se tivesse no hospital acho que tentariam vácuo, mas em casa e naquele momento aquela foi a melhor solução, não acho que isso faça do meu parto mais ou menos humanizado. Acho que foi uma intervenção necessária naquele momento, naquela situação específica. Acho que muita gente quando se toca em certos termos já diz: "ah isso não é humanização", mas sei de gente que queria ter direção de puxos e ficou sem saber o que fazer e pedia pra orientarem de quando devia fazer força...ou que ficou morta com farofa de placenta porque fazia força o tempo todo antes da hora... Humanizar o parto e o nascimento é respeitar os limites de cada um, é intervir quando necessário, é fazer cesárea se necessário. Mas antes de tudo é preparar a mulher para essa experiência, é absurdo que tenhamos perdido o contato com a natureza e temos de reaprender a como funciona, mas só há esse caminho para nos reconectarmos com o natural sem esquecer da tecnologia e ter toda a segurança pro melhor parto possível, como amor respeito e acolhimento. O quadro poderia ser revertido com a presença de uma doula, vou fazer um post explicando melhor, mas as dores insuportáveis sentidas podiam ser melhor toleradas com massagens prova disso é que no próprio relato há um psicólogo que faz massagem nela e ela relaxa e apaga, mas ela não consegue ainda reconhecer isso pois o desfecho de toda essa situação foi muito traumático.
Uma mão amiga dizendo: "vai passar!", "você vai conseguir" "coragem" " cada contração é uma a menos" podia ter revertido toda essa situação. E aí fica a reflexão que tiro dessa história ela teve o direito a um parto fisiológico quase 100%, mas não foi humanizado, faltou componente humano, faltou confiança e apoio. Que isso sirva de lição, para que não tenhamos apenas menos violência obstétrica, mas para que tenhamos mais acolhimento nas equipes de parto.

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